A blitz da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no segundo turno de 2022 está no centro da história de Felipe Veloso, Miro e Raimundinho, que caminharam até o local de votação em Caxias, no Maranhão. A reportagem publicada em 22 de outubro de 2026 relata que o trio votou em Luiz Inácio Lula da Silva.
Naquele pleito, agentes da PRF fizeram operações de fiscalização em regiões do Nordeste. Segundo a reportagem, investigações posteriores apontaram que a ação foi planejada para dificultar a circulação de eleitores em uma região onde Lula tinha forte apoio.
Felipe, Miro e Raimundinho moravam em um povoado nos arredores de Caxias e seguiram a pé até o Povoado Baú no dia do segundo turno. A reportagem conta que Felipe registrou parte do percurso em vídeos publicados no TikTok.

O relato reúne a caminhada, as medidas adotadas pela PRF e as investigações sobre a operação, além das lembranças de eleitores e de um cientista político. Também acompanha a vida de Felipe e Eva Assunção em Caxias e as opiniões de moradores sobre a política brasileira.
O vídeo e a caminhada dos eleitores até a urna
Na gravação de 66 segundos, Felipe Veloso provoca Jair Bolsonaro e reclama da presença de policiais que, segundo ele, estavam apreendendo motocicletas no dia da votação. O vídeo termina com o morador de Caxias rindo após dizer que ele e os amigos votariam em Luiz Inácio Lula da Silva.
Publicado no TikTok, o registro ultrapassou 30 mil curtidas e circulou amplamente depois da derrota de Bolsonaro. Felipe também gravou outro vídeo, menos compartilhado e que deixou de estar disponível, no qual filmou a viatura da Polícia Rodoviária Federal e reclamou da operação.
O trio saiu do povoado por volta das 9 horas e chegou ao local de votação, no Povoado Baú, antes do meio-dia. Embora Felipe diga no vídeo que caminhou 25 quilômetros, a reportagem apurou que o percurso tinha 7,5 quilômetros; ele explicou que aumentou a distância para chamar atenção para a gravação.
As operações da PRF no Nordeste e o plano investigado
Antes de sair, Felipe, Miro e Raimundinho ouviram rumores pelo WhatsApp de que havia fiscalização nas estradas e decidiram deixar as motocicletas em casa. A blitz da PRF em 2022 também foi montada em outros pontos do Nordeste, com ações para verificar veículos e condutores.
Na estrada que liga o povoado à BR-226, os três passaram por uma operação instalada perto do Restaurante da Rosinha. Felipe indicou que os agentes estavam à sombra de duas árvores, diante de um terreno cujo mato alto escondia a fiscalização de quem vinha dos povoados a oeste.
Rosinha contou à reportagem que viu um caminhão-prancha da PRF sair carregado de motos e retornar vazio para buscar outras. Entre os veículos apreendidos estava o do pai de um genro de Felipe, que precisou pagar quase mil reais em multas e taxas para recuperá-lo no pátio da corporação em Caxias.
A vida de Felipe, Miro e Raimundinho nos arredores de Caxias
Felipe tinha 56 anos quando conversou com a repórter e é pai de cinco filhos. Ele e a esposa, Eva Assunção, nasceram e passaram boa parte da vida em um povoado rural perto de Caxias; depois, alugaram uma casa próxima ao Centro para ficar perto das escolas dos filhos, que cresceram.
Na cidade, há mais de 40 mil motocicletas, enquanto a frota de ônibus não chega a 250 veículos e apenas 14 circulam em linhas de transporte público. A reportagem descreve ruas asfaltadas, de pedra e de terra, além de um trânsito movimentado apesar da ausência de engarrafamentos.
No povoado, dois caminhos de terra formam um “T” entre pastagens, plantações de milho e cocais. Não há contagem oficial de moradores ou casas; segundo estimativas locais citadas pela reportagem, existem menos de quarenta construções, entre residências e pequenos depósitos.
Depois de cerca de quatro décadas trabalhando na roça, Felipe passou a atuar como pedreiro, por considerar menos incerto erguer paredes do que depender das colheitas, sujeitas à chuva, ao sol e às pragas. Ele mostrou à repórter a reforma da casa de um tio-avô de Eva, com paredes verde-escuras, alpendre, colunas e portas de madeira trabalhada.
A caminhada como gesto de participação democrática
O cientista político Celso Rocha de Barros, integrante do programa Foro de Teresina, recordou a imagem dos três eleitores a pé e os chamou de “soldados da democracia brasileira”, em referência a Ulysses Guimarães. Para ele, a cena expressava a determinação de participar da eleição mesmo diante de obstáculos.
Celso disse à reportagem que o segundo turno foi “um terror” e que, ao saber das barreiras da PRF no Nordeste, imaginou que muitos eleitores poderiam desistir de seguir viagem. Em uma disputa acirrada, avaliou, a redução da participação poderia ter consequências para o resultado.
O cientista político também afirmou que nunca precisou enfrentar o mesmo tipo de dificuldade para exercer o direito ao voto. Na avaliação dele, o percurso dos moradores mostra que eleitores pobres não são necessariamente passivos e que compreendiam a relevância daquela votação.
As investigações e as condenações ligadas à operação
As investigações sobre os atos de 8 de janeiro apontaram que a então delegada da Polícia Federal Marília Ferreira Alencar, diretora de inteligência do Ministério da Justiça, solicitou um relatório de inteligência sobre municípios onde Lula era favorito, sobretudo no Nordeste. A reportagem informa que o então ministro Anderson Torres autorizou a operação, executada pelo então diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques.
Segundo as apurações relatadas, as fiscalizações tinham o objetivo de dificultar a circulação de eleitores durante o pleito. Vasques e outros 28 integrantes do núcleo bolsonarista foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal por participação nos atos de 8 de janeiro.
Vasques recebeu pena de 24 anos e seis meses de prisão. A reportagem relata que ele rompeu a tornozeleira eletrônica na véspera do Natal, fugiu para o Paraguai e foi capturado; depois, passou a cumprir pena no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
As escolhas políticas de Felipe, Eva e outros moradores de Caxias
Eva disse à reportagem que votou em Lula sempre que teve oportunidade e que voltaria a escolher o petista em 2026. Para explicar o apoio, o taxista Cícero Leão apontou um vaso de barro na varanda de uma amiga da família e lembrou que recipientes desse tipo serviam para manter água fresca antes de haver geladeira nas casas.
A dona da casa, Jane de Castro, contou que o imóvel foi construído pelo programa Minha Casa Minha Vida Rural e afirmou que não era anterior a 2002. Ela votou em Jair Bolsonaro em 2018 e em Lula em 2022, mas disse que ainda tinha dúvidas sobre sua escolha seguinte, pois, em sua avaliação, “tudo fica a mesma coisa”.
O marido de Jane, Cléber, afirmou que havia apoiado Bolsonaro, mas se decepcionou com ele e comparou sua reação à de Lula quando foi preso. Na conversa, ele disse que Bolsonaro “não aguentou nem uma cana”, enquanto Lula teria se apresentado de cabeça erguida.
Felipe mencionou uma suspeita de envolvimento de Flávio Bolsonaro no assassinato de Marielle Franco, mas a reportagem esclarece que as investigações não apontaram participação do senador no crime. O texto também registra que Flávio mantém relações próximas com pessoas ligadas aos ex-deputados Domingos e Chiquinho Brazão, apontados como mandantes do assassinato; os moradores ouvidos disseram que não votariam nele.


